FT-CI

Argentina: candidatura de Cristina Kirchner

A patrocinada Techint e os EUA

12/07/2007 La Verdad Obrera N° 243

Nos dias anteriores ao ato de lançamento em La Plata, ficou claro quem são os verdadeiros sponsors da candidata oficial. “O presidente da Techint Paolo Rocca disfrutou de um tratamento especial na cerimônia de posse do novo ministro da Economia. Foi um dos poucos que não perdeu tempo para ingressar na Casa Rosada... Uma vez dentro, manteve uma amigável conversa com a senadora Cristina Fernandez...” (El Cronista Comercial, 18 de julho). No dia seguinte, os Kirchner participaram do ato oficial de aniversário do atentado ao AMIA (o mesmo dia em que se cumpriam 10 meses de impunidade pelo desaparecimento de Julio López) e disseram “compartilhar tudo” o que foi dito pelos altos capas da comunidade judia que pediram a ruptura de relações da Argentina com o Irã, de acordo com os interesses da Embaixada dos EUA e do Estado de Israel, que massacra o povo palestino. Em meio ã crise que terminou na queda da ministra Miceli e outros escândalos de corrupção, e enquanto o povo é o que mais sofre com a crise energética, a candidatura de Cristina é patrocinada pelos grandes empresários e os yanques.

Crise na transição e postales do segundo mandato

A iminência do ato em La Plata para o lançamento de Cristina Kirchner ã presidência e o pedido de indagatoria da justiça ã ministra Felisa Miceli, apuraram sua renúncia. Paradoxos do “capitalismo nacional”: o mesmo Paolo Rocca, chefe do Grupo Techint envolvido no caso Skanska-De Vido, foi a figura estelar da posse de um homem da UIA, Miguel Peirano, no Ministério da Economia o que apresentou como “um grande trabalhador”. O novo ministro recebeu o caloroso apoio de mais de 300 empresários, assim como dos chefes sindicais da UOM, Antonio Caló, e Hugo Moyano da CGT.

Se a gestão atual de Kirchner foi chamada “de transição” depois de 2001 (na realidade depois do desvio daquelas jornadas de massas e recomposição da autoridade estatal), o mandato de Cristina tem pretensões de ser o da “institucionalização”. Ou seja, a tentativa de reconstrução de um novo sistema de partidos da classe dominante e a consolidação de um regime mais estável, do tipo “social-liberal” de Bachelet no Chile como o que lembram todos os intelectuais da burguesia, mais “previsível” para os interesses de Washington na região e livre dos traços “populistas” (relação com Chávez e líderes “piqueteiros” em postos de governo) que criticam Kirchner. Mas, pra além das intenções, nos últimos meses se colocaram ã mostra os problemas da própria transição. Apesar do forte crescimento econômico, a crise na gestão capitalista dos recursos energéticos ameaça colocar limites ao auge produtivo e desatou uma sequência de escândalos de corrupção que vem mostrando como os funcionários do governo de Kirchner atuam, assim como todos os que o antecederam, diante do sistema de pagamento extra.O de Miceli foi o primeiro escândalo de corrupção que derivou da queda de um ministro de Kirchner, mas seguem crises abertas, tanto aprofundando a investigação sobre a “rota do dinheiro” da ex-ministra, como a denúncia que pesa sobre a secretaria de Meio Ambiente Picolotti que havia sido cooptada para conter o protesto de Gualeguaychú, ou o destino da intervenção no INDEC, que podem derivar em novas substituições de funcionários e um maior desgate do elenco governamental. Não se pode descartar que a dinâmica desta crise afete a tal ponto a popularidade da candidata que coloque em perigo a própria reeleição dos Kirchner, que até hoje parece assegurada, e abrir um cenário de segundo turno nas eleições presidenciais de outubro.

Da necessidade, virtude

O fato é que, sobre a base desta crise, o governo trata de transformar a necessidade em virtude. O efusivo festejo dos empresários da UIA frente ã posse do novo ministro da Economia mostra que, pra além da continuidade ou não de Peirano em um futuro gabinete de Cristina, na transição Kirchner se aposta em aprofundar o “pacto social” com os empresários e a cúpula dos sindicatos para manter o dólar em alta e os baixos salários, que são a base do “novo modelo”. Inclusive, segundo o novo ministro, o “controle da inflação” se fará de maneira “institucional” (o que parece uma “correção” da atual cruzada do criticado secretário de Comércio Guillermo Moreno acusado pelo establishment de “patotero”) e quiçá lhe dêem algum tipo de permanência ao Conselho do Salário. Uma jogada para apontar o governo nos meses que restam até as eleições tratando de despejar o terreno para o triunfo da candidata oficial.

Miguel Peirano foi por 10 anos economista da UIA (incluído os últimos dias de De la Rua quando a corporação empresarial encabeçada por Techint já propunha junto a Duhalde a saída devaluacionista) e levado ao ministério por Lavagna. Começa sua gestão para cobrir a crise energética com um novo festival de subsídios do governo ás petroleiras e mais concessões a Techint nas obras de infraestrutura para novos gasodutos, o que fechou a disputa aberta entre o holding e o governo pelo caso Skanska. O pacto que salvou De Vido (e limitou o desfile pelos tribunais a funcionários de segunda linha como Madaro e Ulloa), parece haver se juntado a Miceli. Com a nova designação tentam renovar o apoio político dos empresários que, mesmo com seus fabulososos lucros, apresentaram semanas atrás uma pauta de reivindicações de “políticas ativas” ao governo; mais subsídios estatais e créditos, inclusive o projeto de criação de um Banco de Desenvolvimento tomando como modelo o BNDES do Brasil. Kirchner busca sacar a base no empresariado ã candidatura de Lavagna, recentemente apoiada públicamente por Duhalde, que se colocam como mais “orgânicos” dos “setores produtivos” que os comissionistas que compõe o pessoal político do atual governo.

Ao mesmo tempo, outro anúncio do caráter do próximo governo esteve plasmado na presença dos Kirchner no ato encabeçado pelos altos chefes da comunidade judia pelo 13° aniversário do atentado ã AMIA. O presidente disse “compartilhar” todo o sofrimento durante o ato onde o titular da AMIA, Luís Grynwald, pediu que se rompam as relações com o Irã. Uma mostra a mais dos compromissos que a candidata oficial assumiu com o Congresso Judeu Mundial, quando o casal presidencial esteve em Wall Street, de um claro alinhamento com a campanha imperialista de Bush, a Embaixada norte-americana e o genocida Estado de Israel que massacra o povo Palestino e com o qual verdadeiramente deveria romper relações diplomáticas todo governo que se chame “progressista”. Pelo contrário se anuncia que Jorge Taiana, atual ministro de relações exteriores, e toda a equipe de gestores dessa política internacional teriam continuidade no gabinete de Cristina Kirchner.

Borocotós de centro-esquerda

Este conteúdo, em essência direitista, do segundo mandado dos Kirchner vem decorado com a incorporação ao oficialismo de figuras provenientes da centroesquerda e gestos “republicanos” que buscam ganhar novo peso do governo nos setores de classe média que vem girando até distintas variantes da oposição. Este é o objetivo da incorporação do “socialista” Jorge Rivas como vice-chefe de gabinete de Alberto Fernandéz e as promessas de “reformas institucionais” (reforma judicial e do regime eleitoral, por exemplo) que são parte da campanha de Cristina Kirchner. Mesmo assim, a presença da candidata na OIT pareceria dar-lhe chances ao eterno pedido da CTA de pessoa jurídica (ao que se opõe a CGT) tratando assim de abrir o jogo e “desperonizar” as relações com a cúpula dos sindicatos. Mais em geral, o plano do governo de constituir uma “nova força política” de centroesquerda, anuncia choques com os setores do velho peronismo. Não somente com os inapresentáveis direitistas que se reuniram em San Luis como Menem e Puerta junto a Sobisch e Patti, senão fundamentalmente com o duhaldismo. Segundo o ultraoficialista Horacio Vertbisky, “Enquanto Duhalde buscará recuperar o controle dos restos de seu aparato e utiliza-lo para investir contra ela, quando deixa a presidência Kirchner tentará organizar uma nova estrutura partidária capaz de sustentar a longo prazo o projeto com os apuros da emergência que começou a pôr em prática no dia 25 de maio de 2003”.

Dois mundos

Seja como for, ambos “projetos” não levam em conta nem eventuais crises econômicas nem a possibilidade de resposta de novas ações de massas, em especial dos trabalhadores. Mas paralelamente as reacomodações na superestrutura política que são noticiadas diariamente nos jornais, por baixo se vem produzindo uma clara reorganização dos trabalhadores, que não tem expressão política nem uma voz unificada na cena nacional mas que constituem todo um “mundo operário”. Por exemplo, recentemente Kirchner e o novo ministro da Economia receberam na Casa Rosada os gerentes da multinacional japonesa Honda que prometeram “uma inversão de 100 milhões de dólares” na nova planta automotriz que funcionará a partir de 2009 na zona de Zárate. Justamente ali, onde hoje uma nova geração de jovens operários químicos de 26 empresas que produzem fertilizantes, como Monsanto e outras, vem protagonizando uma dura greve que lhes custou a prisão de companheiros e repressão policial. Este “mundo operário” se desenvolve não somente pelas expressões de insatisfação dos trabalhadores que reivindicam recuperar o salário perdido com a desvalorização e conquistar melhores condições de trabalho, que foram liquidadas nos anos 1990, obrigando a formarem planos de luta a alguns setores da mesma burocracia sindical. Também diante do início da recuperação de organizações de luta, como novas comissões internas e eleição de delegados apoiados nas decisões de assembléias, como viemos mostrando, número a número, no jornal La Verdad Obrera.

Estes desenvolvimentos têm um tempo distinto que os movimentos dos de cima, mas uma nova crise econômica poderia colocá-los em consonância. O PTS aposta que estas expressões que alteram as condições “normais” de exploração do capitalismo somente a nível da produção das empresas, se desenvolvam e continuem conquistando frações antiburocráticas no interior dos sindicatos e se transformem em organização política com peso decisivo na co-relação de forças nacional. Por isso nossa campanha para colocar de pé, começando por agrupar todas as novas organizações combativas e com o impulso da esquerda classista e socialista, um grande partido da classe trabalhadora que prepare uma saída favorável a todas as classes exploradas na próxima crise nacional.

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