FT-CI

Economía

Uma visão unilateral do "milagre" chinês

08/08/2007

O ex-membro da FIP (Frente de Esquerda Popular) e ex-funcionário do segundo governo de Menem, Jorge Castro, expressa com toda veemência uma visão unilateral do "milagre" chinês, coisa que é hábito na direita capitalista e lamentavelmente em alguns setores da esquerda. Sua nota sobre a China intitulada "O Boom se inicia", publicada no domingo dia 22 de julho no jornal argentino Perfil se mostra bastante eloqüente.

A nova industrialização chinesa segue em grande medida o caminho de outros países da Ásia, ou seja, desenvolvimento extensivo da produção ou, em outras palavras, a assimilação da técnica avançada do Ocidente, que permitiu construir em poucos anos grandes fábricas modernas enquanto outras são, em um forte exemplo de desenvolvimento desigual e combinado, pequenas oficinas, questão que varia segundo o setor e sua relação com o capital estrangeiro como veremos mais adiante. O que faz a diferença do processo de desenvolvimento chinês com seus anteriores da Ásia é a escala e sobretudo o que buscamos explicar no texto "Mitos e realidades da China Atual" (Estratégia Internacional n° 22), o distinto ponto de partida, já que a China - diferente dos NICs e do Japão, países capitalistas os primeiros e imperialista o segundo, que são tomados como referência para comparação - era um estado operário deformado e sobretudo o vasto pool de superpopulação trabalhista em seu processo de alcançar o nível de industrialização das economias desenvolvidas ("catch-up"). Mas assinalar somente seu potencial de crescimento, ignorando o conjunto das contradições que existem, e que os recentes dados do segundo semestre não mais agravaram, é além de antidialético, de um otimismo apologético que nem a mesma direção chinesa compartilha.

Tal análise (e outras pelo estilo) cometem os seguintes erros crassos:

1- Subestima as contradições internas do brutal crescimento chinês

2- Superestima suas capacidades tecnológicas

3- Se esquece que uma das características salientes do capitalismo pós ofensiva neoliberal são as crises de "sobreacumulação, sobreendividamente e especulação", ainda que no caso da China o nível de endividamento soberano seja baixo e a situação de fortes créditos incobráveis de banco público tenha melhorado no último período ainda que pudesse mudar frente a schocks tanto internos como externos. Para estes analistas, escribas a sueldo sem lugar para dúvidas do capitalismo, parece que a crise asiática de 1997 nunca existiu, e que a chamada "nova economia" norte-americana de fins da década passada seguiu de vento em popa. Não nos falava ontem mesmo esse senhor Jorge Castro da imparável nova realidade da economia norte-americana nos anos 1990? Como sempre, agora mudaram a nova moda.

4- Esta análise esquece que, "A relação de forças atual não está determinada pela dinâmica do crescimento, mas pela oposição da potência total dos dois adversários, tal como se expressa com as reservas materiais, a técnica, a cultura, e antes de tudo com o rendimento do trabalho humano", tomando o método do marxista revolucionário León Trotsky, que no meio de grandes conquistas da ex URSS, assinalava os limites desse crescimento. Ainda que o modelo "soviético" e o modelo "chinês" tenham enormes diferenças, como é o caráter capitalista restauracionista do Estado chinês atual, o desmantelamento da planificação econômica e do monopólio do comércio exterior, que convertem a China num dos países mais favoráveis ás inversões estrangeiras e ao comércio internacional do mundo, e o papel central das inversões estrangeiras diretas (IED) em seu impulso; comparada com as características de Estado operário degenerado, a planificação burocrática e o caráter autárquico da ex-URSS, o método serve para comparar as fortalezas das distintas economias a nível mundial. E seguindo este método, tomamos o indicador mais importante de todos, isto é, o rendimento do trabalho humano, somente podemos dizer que a produtividade manufatureira chinesa em relação aos grandes países continua muito pra trás. Assim o confirmam os estudos mais avançados segundos os últimos dados disponíveis: "O presente estudo confirma a natureza trabalho intensivo da produção chinesa.. A produtividade trabalhista é muito baixa na China comparada com a Alemanha. Está a um nível de 8.6% da produtividade alemã na indústria manufatureira. Entretanto, há grandes variações segundo os ramos de produção: em cinco setores a produtividade chinesa alcança mais de um quarto do nível alemão (indumentária, couro e sapatos, máquinas de oficina e computadores, maquinaria elétrica e outros produtos manufaturados). Em todos estes ramos (exceto maquinaria de oficina) a China desenvolve uma relativa especialização comparada com a Alemanha. Isto sugere que a indústria manufatureira chinesa é relativamente especializada onde tem os níveis relativamente mais altos da produtividade. Todos estes ramos estão também caracterizados por uma forte presença de empresas estrangeiras, o que provavelmente explique sua alta performance na produtividade: de acordo com estimativas, as filiais estrangeiras contribuíram com uma grande porcentagem no produto dos equipamentos eletrônicos e de telecomunicações (63%), couro e sapatos (50%), indumentária (43%) e equipamento eletrônico (27%) (Lemoine, 2000)." ("China’s manufacturing industry in an internacional perspective: A China-Germany comparison, Ren Ruon e Bai Manying, 10/10/2002 grifo nosso). Esta realidade, no marco da dominação do mundo pelas potências imperialistas e por suas grandes transnacionais, impõe um limite infranqueável ao desdobramento em toda sua magnitude de um pujante capitalismo chinês, além de submetê-lo aos vai-e-véns do mercado mundial ao qual está cada vez mais integrado e em especial, a seu grande mercado, em última instância a economia norte-americana, um gigante econômico em declínio que se apóia nas bases endebles (uma taxa de arrecadação inexistente, déficit e necessidade imperiosa de financiamento internacional, constituindo a principal nação devedora a nível mundial), no marco da aceleração de sua decadência hegemônica como conseqüência da débâcle no Iraque, distinto ã hegemonia indiscutida nos anos 1990 com a qual continha suas fraquezas de seu processo de acumulação capitalista.

5- Castro faz alarde com os novos dados conhecidos nestes últimos dias que confirmam que nos fins do PBN a China passaria a Alemanha ao final do ano, convertendo-se na terceira economia em tamanho a nível mundial, depois dos EUA e Japão. Isto já constitui um significativo êxito. Mas, como dizia Trotsky em relação a ex URSS: "Quando nos dizem que a URSS terá em 1936 o primeiro lugar na produção industrial da Europa - êxito enorme em si mesmo - não somente se esquecem a qualidade e o preço de custo, mas o tamanho da população. O nível de desenvolvimento geral do país, e mais particularmente, a condição material das massas não podem determinar-se, nem a grandes rasgos, mais que dividindo a produção entre o número de consumidores.". (A Revolução Traída, grifo nosso). Neste plano, o proeminente economista de esquerda Andrew Glyn sustenta que: "Enquanto converter-se na maior economia a nível mundial seria um notável desenvolvimento, ã vasta população chinesa significa que se isto ocorresse seria a menos de um quarto do nível do PBN per capita dos EUA (...) Apesar da duplicação do PBN per capita, tomando como padrão o PBI per capita norte-americano nos últimos 20 anos, a China está ainda mais atrás dos EUA do que a Coréia e Taiwan há três décadas atrás quando começaram seu rápido ’catch-up’ (processo de colocar-se a nível ou alcançar a economia norte-americana) que começou no final da década de 1930; ou muito mais atrás ainda da porcentagem do PBI per capita norte-americano que quando o Japão iniciou o mesmo processo em meados de 1950. China é obviamente muito maior, em termos de população, que os exemplos anteriores de ’catch-up’ asiático. Entretanto, esta também, depois de duas décadas de crescimento espetacular, ainda está muito atrás, em termos relativos, das posições nas quais se iniciou seu esforço de crescimento. Ambos aspectos contribuem com o gigantesco potencial crescimento da China. Obviamente, não há nada inevitável para que a China continue sobre sua atual trajetória" (“Global Imbalances”, Andrew Glyn, New Left Review 34, julho/agosto de 2005). Castro, como sempre, unilateraliza um elemento, neste caso o potencial de crescimento chinês do qual fala Glyn sem levar em conta, como veremos, nenhuma de sua contradições.
6- Por isso as análises lineares e triunfalistas de Castro estão por trás, não dos marxistas (ainda que não de todos, lamentavelmente), mas das preocupações sobre o crescimento da mesma direção chinesa. No dia 15 de março, depois dos dois primeiros meses do ano espetaculares em crescimento, e aproveitando sua coletiva de imprensa anual, seguindo as conclusões da Assembléia Popular Nacional, o órgão máximo legislativo da China, o primeiro ministro chinês, Wen Jiabao, caracterizou explicitamente as condições macroeconômicas chinesas como "instáveis, desequilibradas, incoordenadas e insustentáveis". Com estes termos se referia ás contradições do atual modelo de crescimento chinês, dominado pela massiva reciclagem da arrecadação doméstica num igualmente massivo boom de inversões que apóia uma plataforma exportadora enormemente poderosa.

Decifremos suas palavras. Instável, ou seja, uma inversão forte, liquidez em excesso e um agudo crescimento do superátiv de conta corrente. Desequilibrado, ou seja, com profundas disparidades entre o campo e a cidade, e entre o leste e o oeste da China. Incoordenado, ou seja, o caráter fragmentado regionalmente do processo econômico, o agudo contraste entre um excesso em manufaturas e um subdesenvolvido setor de serviços, e as enormes disparidades entre o excesso de inversão e um consumo deficiente das amplas massas. Insustentável, no marco da degradação acelerada do meio ambiente e da disponibilidade de recursos não renováveis cada vez mais escassos, além da crescente tensão social com a multiplicação de greves operárias e incidentes no campo que vêm acontecendo nos últimos anos. Em última instância, o modelo atual, inclusive para os dirigentes mais lúcidos da China oficial, tem dado já toda sua utilidade e agora os riscos se multiplicam, não somente os perigos de um excesso de capacidade e um desenvolvimento protecionista nos países centrais frente a seu sempre crescente superávit comercial, mas também as contradições internas do mesmo como suas crescentes desigualdades sociais, excessos no consumo de recursos e a degradação ambiental concomitante. Mas contra as mesmas expectativas dos mais altos dirigentes chineses, os últimos dados - que vão contra Jorge Castro - significam que estes desequilíbrios têm aumentado. Um persistente excesso de liquidez, junto de um sistema bancário ainda muito fragmentado e um processo de tomada de decisões das inversões motivado em grande parte por considerações provinciais e locais, e a crescente competência imperialista para entrar no suposto "El Dorado" do mercado interno chinês, tem frustrado as intenções declaradas da cúpula de Pekín de dominar as enormes contradições do atual processo econômico.

Fica como consolo aos burocratas restauracionistas chineses não ter como assessor um personagem nefasto como Jorge Castro. Talvez, apesar das enormes tensões e pressões aos que estão sujeitos, por este fato tenha uma sorte melhor que o ex presidente argentino Carlos Menem, do qual Castro foi funcionário na última parte de seu segundo governo.

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